quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ensaio de Annabel II - no trabalho.

O ambiente em que Annabel trabalha é completamente heterogêneo. Em uma repartição de pesquisas históricas e sociais, cada um tem seus sonhos, vontades, personalidades, seu tempo e ela bem sabe disso. Mesmo não gostando muito do clima pesado que as diferenças as vezes geram, ela continua sentindo um certo prazer em ir pra lá e tem dias que mesmo que a montanha russa desça, acaba sendo bom olhar pra cara de toda aquela gente.
Foi por esses dias que ela chegou no trabalho não muito bem. A cabeça cheia de passado, Annabel sempre viveu de passado e eram as dores que isso provocava que ela precisava controlar com o pseudo-vício. Aliás, foi ali que ela foi chamada de viciada a primeira vez. Tinha doído, mas agora tinha passado. Ela tinha a capacidade de se regenerar de desavenças como essas muito rápido, as vezes em horas a questão era resolvida, mas o tempo dela era diferente do resto do mundo. Todos gostavam de arrastar as questões, resolver tudo pelos meios não-convencionais e ela era a favor, mesmo com medo, de uma boa conversa. Voltando ao dado dia, o passado atormentou Annabel. Era um problema com uma amiga, era um ex-namorado, era a solidão de sempre. Ela costumava colocar suas esperanças todas nos amigos, todo amor que deveria ser por si mesma, era pelos outros e talvez fosse por isso que ela sofria tanto quanto a tal da amiga arrastava o problema por tanto tempo. A necessidade, o desejo de resolver aquilo mais depressa, era o que mantinha Annabel respirando com a velha angústia no coração. O calmante não tirava a angústia, ela já tinha tentado. Naquele mesmo dia ela já tinha tomado pra ver se subia um pouco o carrinho da vida na montanha.
Ela pegou o papel e começou a rabiscar o que era preciso. Era uma área da metodologia das pesquisas que ela não gostava mas se esforçava por entender. O barulho das diferenças, a dor da angústia, o sono químico, os rabiscos, tudo foi se misturando. O coração ficou apertado das memórias e o destino gostava de repetir as imagens na cabeça de Annabel. As lágrimas começaram a crescer, mas ficaram contidas. Deveriam ter caído, era o que ela achava, porque alguém naquele ambiente louco tinha que perceber que havia algo errado, alguém precisa escorá-la, perdoá-la mesmo sem ter nada errado, pra fazer o papel da amiga que ela tanto queria que esquecesse qualquer coisa de ruim que houvesse acontecido. Daí com isso, o calor das crises abafadas por quem tinha preenchido a lacuna de melhor amigo na vida dela e tinha deixado um espaço que Annabel procurava preencher com outro. Ela até pensava que tinha achado, mas as pessoas são tão confusas.
Alguém tinha dito pra ela que era preciso lembrar da euforia do alto da montanha-russa, das borboletas no estômago, mas ela não conseguia lembrar, ela não conseguia sentir e aquilo piorou seu estado. I Found A Reason tocava devagar, cravada como uma faca em sua mente. Fim de expediente, ela se sentiu até melhor porque os risos eram comuns naquela hora, alegria de abrir a porteira da saída do trabalho. Em casa ela jogou uma água no rosto, foi lavar o blusão florido na pia porque precisava dele no dia seguinte e acabou encarando o espelho.
- Você precisa se resolver, não posso viver com você assim. Você me faz mal. Cada um tem seu tempo, você tem que respeitar o dela e viver sua vida. Deixa o passado enfiado no inferno onde ele tá, deixa ele lá viver a vida dele, esquece tudo isso. Você não pode mais viver de passado, assim me machuca!
Era um grito entalado na garganta.
- Esquece essa vida que não é de verdade que você anda vivendo, abandona isso. Como você tem a cara de pau de pedir pra primeira estrela toda noite pra ter um futuro ilustre? Como é que tu pôde pedir pra um Deus que você mal consegue definir (outra dorzinha idiota que você sente) pra despertar mais alto a esperança ridícula que você tem que fazer o mundo te ouvir e não fazer nada pra tudo se concretizar? Cara, tu sabe que o futuro te reserva algo, que as pessoas vão aprender a se respeitar, não interessa se é preto ou se é viado, mas como você convence as pessoas sem respeitar a si mesma?
Entre outros berros, destaco esse.
A roupa já nem tinha tanta importância. Annabel engoliu seu ódio, fez o que a fazia se sentir melhor e sumiu dentro de seus pensamentos.
Será que agora ela respira?

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