O ambiente em que Annabel trabalha é completamente heterogêneo. Em uma repartição de pesquisas históricas e sociais, cada um tem seus sonhos, vontades, personalidades, seu tempo e ela bem sabe disso. Mesmo não gostando muito do clima pesado que as diferenças as vezes geram, ela continua sentindo um certo prazer em ir pra lá e tem dias que mesmo que a montanha russa desça, acaba sendo bom olhar pra cara de toda aquela gente.
Foi por esses dias que ela chegou no trabalho não muito bem. A cabeça cheia de passado, Annabel sempre viveu de passado e eram as dores que isso provocava que ela precisava controlar com o pseudo-vício. Aliás, foi ali que ela foi chamada de viciada a primeira vez. Tinha doído, mas agora tinha passado. Ela tinha a capacidade de se regenerar de desavenças como essas muito rápido, as vezes em horas a questão era resolvida, mas o tempo dela era diferente do resto do mundo. Todos gostavam de arrastar as questões, resolver tudo pelos meios não-convencionais e ela era a favor, mesmo com medo, de uma boa conversa. Voltando ao dado dia, o passado atormentou Annabel. Era um problema com uma amiga, era um ex-namorado, era a solidão de sempre. Ela costumava colocar suas esperanças todas nos amigos, todo amor que deveria ser por si mesma, era pelos outros e talvez fosse por isso que ela sofria tanto quanto a tal da amiga arrastava o problema por tanto tempo. A necessidade, o desejo de resolver aquilo mais depressa, era o que mantinha Annabel respirando com a velha angústia no coração. O calmante não tirava a angústia, ela já tinha tentado. Naquele mesmo dia ela já tinha tomado pra ver se subia um pouco o carrinho da vida na montanha.
Ela pegou o papel e começou a rabiscar o que era preciso. Era uma área da metodologia das pesquisas que ela não gostava mas se esforçava por entender. O barulho das diferenças, a dor da angústia, o sono químico, os rabiscos, tudo foi se misturando. O coração ficou apertado das memórias e o destino gostava de repetir as imagens na cabeça de Annabel. As lágrimas começaram a crescer, mas ficaram contidas. Deveriam ter caído, era o que ela achava, porque alguém naquele ambiente louco tinha que perceber que havia algo errado, alguém precisa escorá-la, perdoá-la mesmo sem ter nada errado, pra fazer o papel da amiga que ela tanto queria que esquecesse qualquer coisa de ruim que houvesse acontecido. Daí com isso, o calor das crises abafadas por quem tinha preenchido a lacuna de melhor amigo na vida dela e tinha deixado um espaço que Annabel procurava preencher com outro. Ela até pensava que tinha achado, mas as pessoas são tão confusas.
Alguém tinha dito pra ela que era preciso lembrar da euforia do alto da montanha-russa, das borboletas no estômago, mas ela não conseguia lembrar, ela não conseguia sentir e aquilo piorou seu estado. I Found A Reason tocava devagar, cravada como uma faca em sua mente. Fim de expediente, ela se sentiu até melhor porque os risos eram comuns naquela hora, alegria de abrir a porteira da saída do trabalho. Em casa ela jogou uma água no rosto, foi lavar o blusão florido na pia porque precisava dele no dia seguinte e acabou encarando o espelho.
- Você precisa se resolver, não posso viver com você assim. Você me faz mal. Cada um tem seu tempo, você tem que respeitar o dela e viver sua vida. Deixa o passado enfiado no inferno onde ele tá, deixa ele lá viver a vida dele, esquece tudo isso. Você não pode mais viver de passado, assim me machuca!
Era um grito entalado na garganta.
- Esquece essa vida que não é de verdade que você anda vivendo, abandona isso. Como você tem a cara de pau de pedir pra primeira estrela toda noite pra ter um futuro ilustre? Como é que tu pôde pedir pra um Deus que você mal consegue definir (outra dorzinha idiota que você sente) pra despertar mais alto a esperança ridícula que você tem que fazer o mundo te ouvir e não fazer nada pra tudo se concretizar? Cara, tu sabe que o futuro te reserva algo, que as pessoas vão aprender a se respeitar, não interessa se é preto ou se é viado, mas como você convence as pessoas sem respeitar a si mesma?
Entre outros berros, destaco esse.
A roupa já nem tinha tanta importância. Annabel engoliu seu ódio, fez o que a fazia se sentir melhor e sumiu dentro de seus pensamentos.
Será que agora ela respira?
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Ensaio de Annabel.
Ela acendeu um cigarro, deu uma tragada e soltou a fumaça bem devagar. Olhou de viés pros olhos negros ao seu lado e soltou:
- Me deixa hein?
O salto fino dourado não compunha um visual muito harmonioso naquele corpo. Calças bem coladas azuis turquesa, um blusão florido com uma cinta passada na cintura da mesma cor da sandália. Uma mão na cintura, outra obviamente segurando o cigarro. Os cabelos presos e coloridos à la Cindy Lauper e uma maquiagem leve.
- Eu tô falando pro seu bem.
E lá isso interessava pra Annabel? A roupagem moderna que ela vestia não podia ser quabrada por um interior sensível, ela tinha que ser dura até o fim. Apagando o cigarro no parapeito da janela, ela não aguentou:
- Quem sabe de mim sou eu! Você não sabe o que passo, o que eu sinto! Eu vim do fundo do poço agora, eu comi o pão que o diabo amassou e você acha que pode me controlar? Me deixa!
Ela sabia que era drama, ela sentia que não era tão verdade. Visitar o fundo do poço tinha ensinado muitas coisas pra ela, mas a noção de que muita gente morria de cancêr todos os dias dizendo que as pessoas deveriam tentar sempre, lutar pelos seus sonhos, não tinha sumido. Andou rápido, com o balanço dos quadris que nem modelo cara conseguia fazer e em poucos passos, alcançou o fim do corredor.
Sentia o rosto queimar, as mãos formigarem, não demorou pra ela começar a chorar. Ela queria que ele entendesse, ela queria que ele aceitasse, ela precisava viver daquele jeito! Claro que ela tinha planos de mudar, mas naquele momento, não! Ela já tinha tentado parar, mas os pesadelos voltavam, as crises, os arranhões, céus...!
Ela sabia da verdade, deveria ser o bastante, mas não era... ela precisava da aprovação das pessoas, ela sentia isso, estava dentro do coração dela. Annabel tinha crescido sendo julgada, ela tentava porque tentava agradar as pessoas mas era errada demais pra elas. Falava mal de todo mundo, mas era a primeira a oferecer o colo. O mundo precisava estar bem pra ser julgado aos olhos dela.
Claro que ela se sentia mal sendo assim, mas não se monitorava o tempo todo... só lembrava do que não deveria ter dito, depois de todo mundo já ter ouvido.
Limpou o rosto e desceu um lance de escadas até um Maverick amarelo, ela gosta dessas coisas diferentes. Ou talvez só queira se exibir, nem mesmo ela sabe. Correr com o carro era uma alegria, ela sentia náuseas, mas nem ligava, o importante era a sensação analgésica que vinha junto com o embrulho do estômago. Era o frio na barriga do alto da montanha-russa, ela precisava lembrar daquilo todo tempo pra não se sentir morta denovo.
Desceu do carro, trancou a porta bem trancada... já dentro do quarto, ela tomou mais um comprimido e nada mais no mundo a abalaria. Eram doses exatas, prescritas, era empírico que a faziam bem. Era só nos tempos mais difíceis, era só enquanto o drama durasse... ela sentia uma calma inefável, era o que importava.
- Me deixa hein?
O salto fino dourado não compunha um visual muito harmonioso naquele corpo. Calças bem coladas azuis turquesa, um blusão florido com uma cinta passada na cintura da mesma cor da sandália. Uma mão na cintura, outra obviamente segurando o cigarro. Os cabelos presos e coloridos à la Cindy Lauper e uma maquiagem leve.
- Eu tô falando pro seu bem.
E lá isso interessava pra Annabel? A roupagem moderna que ela vestia não podia ser quabrada por um interior sensível, ela tinha que ser dura até o fim. Apagando o cigarro no parapeito da janela, ela não aguentou:
- Quem sabe de mim sou eu! Você não sabe o que passo, o que eu sinto! Eu vim do fundo do poço agora, eu comi o pão que o diabo amassou e você acha que pode me controlar? Me deixa!
Ela sabia que era drama, ela sentia que não era tão verdade. Visitar o fundo do poço tinha ensinado muitas coisas pra ela, mas a noção de que muita gente morria de cancêr todos os dias dizendo que as pessoas deveriam tentar sempre, lutar pelos seus sonhos, não tinha sumido. Andou rápido, com o balanço dos quadris que nem modelo cara conseguia fazer e em poucos passos, alcançou o fim do corredor.
Sentia o rosto queimar, as mãos formigarem, não demorou pra ela começar a chorar. Ela queria que ele entendesse, ela queria que ele aceitasse, ela precisava viver daquele jeito! Claro que ela tinha planos de mudar, mas naquele momento, não! Ela já tinha tentado parar, mas os pesadelos voltavam, as crises, os arranhões, céus...!
Ela sabia da verdade, deveria ser o bastante, mas não era... ela precisava da aprovação das pessoas, ela sentia isso, estava dentro do coração dela. Annabel tinha crescido sendo julgada, ela tentava porque tentava agradar as pessoas mas era errada demais pra elas. Falava mal de todo mundo, mas era a primeira a oferecer o colo. O mundo precisava estar bem pra ser julgado aos olhos dela.
Claro que ela se sentia mal sendo assim, mas não se monitorava o tempo todo... só lembrava do que não deveria ter dito, depois de todo mundo já ter ouvido.
Limpou o rosto e desceu um lance de escadas até um Maverick amarelo, ela gosta dessas coisas diferentes. Ou talvez só queira se exibir, nem mesmo ela sabe. Correr com o carro era uma alegria, ela sentia náuseas, mas nem ligava, o importante era a sensação analgésica que vinha junto com o embrulho do estômago. Era o frio na barriga do alto da montanha-russa, ela precisava lembrar daquilo todo tempo pra não se sentir morta denovo.
Desceu do carro, trancou a porta bem trancada... já dentro do quarto, ela tomou mais um comprimido e nada mais no mundo a abalaria. Eram doses exatas, prescritas, era empírico que a faziam bem. Era só nos tempos mais difíceis, era só enquanto o drama durasse... ela sentia uma calma inefável, era o que importava.
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