quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ensaio de Annabel.

Ela acendeu um cigarro, deu uma tragada e soltou a fumaça bem devagar. Olhou de viés pros olhos negros ao seu lado e soltou:
- Me deixa hein?
O salto fino dourado não compunha um visual muito harmonioso naquele corpo. Calças bem coladas azuis turquesa, um blusão florido com uma cinta passada na cintura da mesma cor da sandália. Uma mão na cintura, outra obviamente segurando o cigarro. Os cabelos presos e coloridos à la Cindy Lauper e uma maquiagem leve.
- Eu tô falando pro seu bem.
E lá isso interessava pra Annabel? A roupagem moderna que ela vestia não podia ser quabrada por um interior sensível, ela tinha que ser dura até o fim. Apagando o cigarro no parapeito da janela, ela não aguentou:
- Quem sabe de mim sou eu! Você não sabe o que passo, o que eu sinto! Eu vim do fundo do poço agora, eu comi o pão que o diabo amassou e você acha que pode me controlar? Me deixa!
Ela sabia que era drama, ela sentia que não era tão verdade. Visitar o fundo do poço tinha ensinado muitas coisas pra ela, mas a noção de que muita gente morria de cancêr todos os dias dizendo que as pessoas deveriam tentar sempre, lutar pelos seus sonhos, não tinha sumido. Andou rápido, com o balanço dos quadris que nem modelo cara conseguia fazer e em poucos passos, alcançou o fim do corredor.
Sentia o rosto queimar, as mãos formigarem, não demorou pra ela começar a chorar. Ela queria que ele entendesse, ela queria que ele aceitasse, ela precisava viver daquele jeito! Claro que ela tinha planos de mudar, mas naquele momento, não! Ela já tinha tentado parar, mas os pesadelos voltavam, as crises, os arranhões, céus...!
Ela sabia da verdade, deveria ser o bastante, mas não era... ela precisava da aprovação das pessoas, ela sentia isso, estava dentro do coração dela. Annabel tinha crescido sendo julgada, ela tentava porque tentava agradar as pessoas mas era errada demais pra elas. Falava mal de todo mundo, mas era a primeira a oferecer o colo. O mundo precisava estar bem pra ser julgado aos olhos dela.
Claro que ela se sentia mal sendo assim, mas não se monitorava o tempo todo... só lembrava do que não deveria ter dito, depois de todo mundo já ter ouvido.
Limpou o rosto e desceu um lance de escadas até um Maverick amarelo, ela gosta dessas coisas diferentes. Ou talvez só queira se exibir, nem mesmo ela sabe. Correr com o carro era uma alegria, ela sentia náuseas, mas nem ligava, o importante era a sensação analgésica que vinha junto com o embrulho do estômago. Era o frio na barriga do alto da montanha-russa, ela precisava lembrar daquilo todo tempo pra não se sentir morta denovo.
Desceu do carro, trancou a porta bem trancada... já dentro do quarto, ela tomou mais um comprimido e nada mais no mundo a abalaria. Eram doses exatas, prescritas, era empírico que a faziam bem. Era só nos tempos mais difíceis, era só enquanto o drama durasse... ela sentia uma calma inefável, era o que importava.

Um comentário:

May disse...

Tentar dizer coisas inefáveis..
Annabel é mestra. :)
Sou sua fã!
Amay. (y)
shaiuhsuiahsiahsiaishuiashuai
:***